Seminário pretende desmistificar transtornos mentais
Evento reuniu gestores, profissionais e usuários para discutir os desafios na saúde mental …
Neila Daronco/JMV
TIMBÓ – Um evento que pretende dar maior visibilidade ao serviço realizado na área da saúde mental em toda a região da Ammvi , iniciou ontem com a participação de usuários e familiares do serviço de 14 cidades, além de gestores de saúde e profissionais e segue durante todao o dia de hoje.
O Seminário Regional de Atenção Psicossocial é promovido pelo Fórum Permanente de Atenção Psicossocial da Região da Ammvi, um grupo constituído entre trabalhadores nos serviços de CAPS, Gerência Regional de Saúde e Humaniza Sus, dos municípios integrantes da Ammvi.
Na manhã de quinta-feira, na abertura do evento, estiveram reunidos a coordenadora do CAPS de Timbó, Elisiane Gisela Largura; o secretário municipal de saúde Elson Marson Júnior; a representante da Gerência regional de Saúde de Blumenau, Solange Bambinetti e a Supervisora Institucional do Ministério da Saúde, psicóloga Tânia Grigolo.
Tânia falou sobre as novas diretrizes do Ministério da Saúde em relação a saúde mental e atenção psicossocial, destacando que a saúde mental “é um problema importante que a população deve conhecer para que se possa avançar nesse cuidado” e que os desafios do Ministério da Saúde “são grandes em todo o país”.
Entretanto, o panorama catarinense se apresenta num bom nível pois há uma rede de serviços, como o CAPS, Equipes de Saúde da Família. “O desafio é qualificar o profissional desse serviço,para que quando o usuário chegar no Posto de Saúde, possa ter um acolhimento de saúde mental, um programa de escuta , que não precisem nunca de uma internação fora da cidade ou que deixem agravar essa situação. Por isso nós buscamos um trabalho comunitário, um tratamento que aconteça perto da família, com as famílias a fim de evitar que os seus problemas sejam agravados”, declarou Tânia.
A coordenadora do CAPS de Timbó, Elisiane Gisela Largura comentou que muitos dos atendimentos no CAPS ocorre quando o quadro clínico da pessoa é grave e que a grande causa dessa demora na procura por assistência ocorre devido ao preconceito. “Vimos muito isso ainda aqui em nossa região. Ainda há famílias e pessoas que escondem o problema que só procura o CAPS quando está em crise. Aqui oferecemos um tratamento que segue a política nacional de enfrentamento desses transtornos, sejam a depressão, o bipolar, transtorno de personalidade e o alcoolismo”, comentou Elisiane.
Para a psicóloga Tânia, o preconceito é uma questão histórica e social ainda enraizada na cultura. “ Aqui no Sul, o preconceito é maior porque as pessoas tem forte a cultura do trabalho. Elas precisam trabalhar, ser uma pessoa de sucesso e isso é muito forte aqui na cultura de santa Catarina. Então, quando há um transtorno e a pessoa não consegue trabalhar no mesmo ritmo da outra, ela acaba sofrendo preconceito e muitas vezes não procura pelo serviço, fica com restrição a falar sobre o problema e buscar ajuda. É preciso superar isso”, afirma a psicóloga.
Como superar? Ela explica que é fazendo o que se propõe o Seminário Regional: falando sobre o assunto e mostrando o trabalho desenvolvido pelos Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS. “É preciso tornar isso público, abri para a população, falando com a imprensa e desmistificar isso, que a pessoa é louca, que deve ser internada. Aos poucos, vamos mudar esse conceito sobre a saúde mental. Importante é ter aqui os próprios usuários do serviço debatendo, os profissionais mostrando o que fazem e como fazem”, disse.
Assim como prevê a lei 10.216, de 2001, conhecida como a lei da Reforma Psiquiátrica, no artigo 3º afirma que é do Estado a responsabilidade de desenvolver a política de saúde mental, a assistência e a promoção de ações de saúde aos portadores de transtornos mentais, com a devida participação da sociedade e da família, e em seu artigo 4º, fica claro que “a internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes”, a psicóloga defende que a internação é tecnicamente ultrapassada. “Pesquisas e ações em relação a isso foram realizadas no mundo todo e deram certo. Defendemos que é preciso retirar esse usuário do hospital e trazê-lo para a comunidade. O Ministério da Saúde tem uma política clara que o lugar de tratar essas pessoas é perto da família, na comunidade”, afirmou.
Embora haja em alguns casos a necessidade de internação, e para isso, incentivos do Ministério da Saúde para que Hospitais ofereçam leitos psiquiátricos, a coordenadora do CAPS de Timbó informa que na região não há leitos psiquiátricos. Embora seja um bom sinal na visão do tratamento, nos casos em que é preciso um leito, o usuário de Timbó e região ainda precisa se deslocar a outras cidades como Florianópolis, Rio do Sul ou Curitibanos. “Muitos hospitais não querem oferecer esse tipo de serviço pelo próprio preconceito, não querem tratar desse tipo de doença”, comenta Elisiane.
A psicóloga do MS defende que a internação ocorra somente em casos graves e que devem ser em hospitais gerais, públicos ou privados. “O problema de saúde mental é um problema como todos os outros, não deve ser isolado. Não existem mais manicômios.Trabalhamos para evitar e diminuir o número dos hospitais psiquiátricos que ainda existem, mas que cada vez mais estão se tornando menores, até por exigência do Ministério. Essa cultura é que a gente está mudando, com debates amplos. As famílias percebem que os usuários têm um tratamento melhor com o apoio da família, com o serviço humano do CAPS e a busca pelo retorno ao convívio social”, afirmou Tânia.




