Em um lar onde o tempo aprendeu a andar mais devagar, no bairro Divinéia, em Rio dos Cedros, nasceu uma história feita de coragem, açúcar, afeto e esperança. Aos 31 anos, Andressa Tainá Lenzi Bortolotti construiu, com as próprias mãos, muito mais do que doces: construiu um caminho possível para viver perto do filho, cuidar da família e transformar amor em trabalho.
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A confeitaria entrou em sua vida ainda muito cedo, há cerca de 15 anos, quando começou a preparar brigadeiros para complementar a renda e vender no local onde trabalhava. Vieram depois os ovos de Páscoa, os cento de brigadeiros para festinhas, pequenas encomendas que, aos poucos, iam desenhando um sonho. Durante 12 anos, tudo isso foi apenas renda extra. Até que a vida mudou de ritmo.


Com o nascimento do filho — que tem paralisia cerebral e precisa de cuidados em tempo integral — Andressa precisou repensar a própria rotina. Foi então que a confeitaria deixou de ser apenas um complemento e passou a contribuir diretamente para a renda da família. Trabalhar de casa permitiu que ela organizasse os próprios horários e, acima de tudo, estivesse presente em cada necessidade do menino. Entre panelas, fornos e modelagens delicadas, ela
encontrou também uma forma de permanecer inteira para quem mais precisa dela.
O primeiro contato com os doces personalizados e a pasta americana aconteceu há cerca de seis anos, ainda de forma tímida, acompanhando vídeos no YouTube e testando o que via pela internet. Mas foi há dois anos que decidiu se aprofundar de verdade, estudando, errando, refazendo e, principalmente,
acreditando. Há um ano, investiu em um curso online de modelagem, dando novos contornos à própria identidade profissional.
O desejo de empreender sempre esteve presente. Andressa gosta de tudo o que envolve artesanato, detalhes, laços, tags e acabamentos delicados — e encontrou na confeitaria o espaço perfeito para unir talento e sensibilidade. “Sempre fiz o que os clientes pediam. Nunca soube dizer não”, conta. Cada pedido diferente virava um desafio, e cada desafio, uma nova habilidade aprendida.
Foi assim que, quase sem perceber, ela se especializou nos doces personalizados e lembrancinhas para eventos. O que diferencia seu trabalho hoje é justamente a capacidade de transformar ideias em formas, cores e personagens. Para Andressa, personalizar é escutar. É traduzir o sonho do cliente em um doce que carrega intenção, cuidado e afeto. Para quem recebe, é o primeiro encantamento da festa. Para quem encomenda, é a certeza de ter sido ouvido.


Seu trabalho é voltado, principalmente, para festas infantis — mas não apenas. Batizados, Primeira Comunhão, Confirmação, chá de bebê, convites para padrinhos e anúncios de gravidez também fazem parte de sua rotina. O público, em sua maioria, é formado por mulheres e mães, perfil que pouco mudou ao longo dos anos.
Entre os desafios, ela aponta o financeiro. O produto artesanal, muitas vezes, não recebe o valor que carrega. É um processo manual, demorado, cheio de detalhes invisíveis para quem olha apenas o resultado final. “Para quem paga, é caro. Para quem faz, é barato”, resume. Ainda assim, Andressa percebe que, mesmo com o poder de compra mais baixo, as pessoas não abrem mão do docinho nas celebrações.
O aumento no preço dos insumos também exige criatividade. Nem sempre a marca mais famosa é a melhor opção, explica. Existem alternativas de qualidade, com valores mais acessíveis. O chocolate, por exemplo, teve alta significativa no último ano, o que obriga o confeiteiro a se adaptar — sempre com transparência, sem enganar o cliente.
Atenta às redes sociais, Andressa acredita que o mercado de personalizados só tende a crescer. Uma foto bonita, um detalhe delicado e uma decoração bem pensada despertam desejo. Tudo vira vitrine. Tudo vira memória compartilhada. E, nesse cenário cada vez mais “instagramável”, as lembrancinhas e os doces personalizados seguem ocupando um lugar especial.
Para se manter competitiva, ela não abre mão do essencial: o sabor. “Não adianta o doce ser bonito se ninguém consegue comer.” Beleza, para ela, precisa vir acompanhada de prazer.


Para o futuro, o sonho é claro e carrega cheiro de chocolate derretido e pasta americana recém-modelada: ter um ateliê próprio, um espaço separado, pensado exclusivamente para a confeitaria. Hoje, toda a produção acontece na cozinha de casa. Além disso, ela planeja desenvolver apliques para confeiteiras que não trabalham com modelagem.
Entre um pedido e outro, Andressa segue provando que, às vezes, a vida encontra novas formas de florescer justamente quando somos obrigados a desacelerar. E que, mesmo diante dos desafios, é possível transformar cuidado, dedicação e amor em pequenas obras de arte — doces, delicadas e feitas sob medida para celebrar histórias.





