Em um mundo onde muitos passam apressados, alheios às dores invisíveis, há quem escolha parar, olhar e cuidar. Em Timbó, esse gesto de humanidade tem nome, rotina e propósito — e, sobretudo, coração. O Projeto Focinhos Molhados nasceu da sensibilidade de quem não conseguiu ignorar o abandono, a fome e o medo estampados nos olhos de animais que, um dia, confiaram nos humanos e foram deixados para trás.
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Criado em 2015, o projeto surgiu da necessidade de oferecer amor, proteção e dignidade a gatos abandonados ou em situação de vulnerabilidade. Sua história, porém, começa ainda antes, há cerca de 11 anos, quando a protetora independente Ariana Nanci Donner decidiu transformar a indignação em ação. Desde então, mais de mil animais já passaram por seus cuidados — mil histórias interrompidas que encontraram recomeço e uma nova chance.
Ariana relata que muitos encontraram lares definitivos, onde hoje vivem cercados por carinho e pertencimento. Outros permaneceram sob seus cuidados até o fim da vida, partindo com dignidade e amor, longe da crueldade das ruas. E há aqueles que ainda aguardam, silenciosamente, o dia em que uma porta se abrirá — não apenas de uma casa, mas de um coração disposto a acolher.
“Cada um deles deixou marcas profundas. Cada resgate reafirmou um compromisso que não conhece feriados ou descanso. Quando se assume a responsabilidade por uma vida, não há pausas. Há continuidade, persistência e amor”, afirma.
O abrigo funciona na rua Paraguai, nº 51, no bairro Imigrantes, em Timbó — um endereço que se tornou refúgio. Ali, onde antes havia medo e abandono, hoje existe cuidado, proteção e recomeço.

O resgate que começa com cuidado e termina com pertencimento
O trabalho do Projeto Focinhos Molhados começa, quase sempre, em cenários de dor. Um gato ferido à beira da estrada, um filhote abandonado em uma caixa, um animal debilitado e invisível aos olhos de quem passa. O primeiro gesto é de observação e responsabilidade.
Em seguida, o animal é encaminhado ao veterinário. Exames, medicação e tratamento iniciam uma nova fase — uma rotina em que o sofrimento começa, lentamente, a dar lugar ao conforto. Mas o cuidado vai além do físico. Há traumas que apenas o tempo, a paciência e o afeto conseguem curar.
A recuperação respeita o tempo de cada animal. Somente após estar saudável, castrado e emocionalmente preparado, ele é disponibilizado para adoção responsável. Porque encontrar um lar não é apenas mudar de lugar — é encontrar pertencimento.
Hoje, o projeto abriga 74 gatos adultos, cada um com sua própria história de superação. Entre eles, cinco são positivos para FeLV, um está em tratamento contra o câncer, quatro são amputados, dois são cegos, uma é surda e há um idoso de 16 anos que carrega no olhar toda a experiência da vida. Todos compartilham algo em comum: sobreviveram. E encontraram um lugar onde são respeitados e amados.
O espaço também abre suas portas à comunidade, mediante agendamento, especialmente aos finais de semana. A visitação permite conhecer o abrigo e vivenciar a chamada “gatoterapia” — um encontro silencioso e transformador entre humanos e animais. Uma troca genuína de afeto que acolhe quem chega e fortalece quem foi resgatado.
Uma luta diária contra o abandono e a indiferença
Se há amor, há também desafios. A proteção animal enfrenta dificuldades que vão além das questões financeiras. O abandono permanece como uma ferida aberta, agravada pela falta de castração e de políticas públicas eficazes. Uma única gata não castrada pode gerar dezenas de filhotes em pouco tempo — muitos deles jamais terão um lar. Crescem nas ruas e enfrentam fome, doenças e maus-tratos, perpetuando um ciclo silencioso e doloroso.
Ariana conhece essa realidade de perto. Para ela, cada resgate é também um enfrentamento contra a indiferença e a ausência de medidas efetivas de proteção animal.
Manter o Projeto Focinhos Molhados exige dedicação integral, todos os dias do ano. As despesas mensais variam entre R$ 4 mil e R$ 6 mil, destinadas à alimentação, areia, medicamentos e atendimento veterinário. Grande parte dos recursos vem do próprio trabalho da protetora, com o apoio de colaboradores que acreditam na causa.

Como forma de fortalecer essa rede de cuidado, o projeto criou o Programa de Apadrinhamento, com contribuições mensais de R$ 20,00, R$ 50,00 ou R$ 100,00. Cada gesto ajuda a garantir dignidade, segurança e qualidade de vida aos animais que ali encontram proteção.
O amor que transforma vidas — e também quem cuida
Entre as muitas histórias vividas no projeto, algumas deixam marcas profundas. Ariana lembra da gatinha Princesa, vítima de agressões e marcada por traumas. Ainda hoje, ela carrega medo, mas, aos poucos, reaprende a confiar.
“Histórias como a dela mostram que o abandono não deixa apenas cicatrizes físicas. Existem feridas invisíveis, que só o tempo, a paciência e o amor conseguem curar”, relata.
Mas também há recomeços. Momentos em que um animal é escolhido e encontra, enfim, um lar. “É nesses instantes que todo o esforço encontra sentido”, afirma.
A missão do Projeto Focinhos Molhados é garantir que cada animal tenha um lar onde seja amado e protegido. Porque eles sentem — o medo e o abandono, mas também o amor, a segurança e o pertencimento.
O maior sonho é ver cada um dos 74 gatos encontrar uma família e viver com dignidade, longe da dor e perto do cuidado. Talvez não seja possível mudar o mundo inteiro. Mas é possível transformar o mundo de um animal por vez. E, em um endereço discreto da rua Paraguai, no bairro Imigrantes, existe um lugar onde focinhos já não carregam apenas cicatrizes — mas novas chances de viver.





