Há histórias que não se explicam apenas com palavras — elas se revelam nos gestos, no tempo dedicado e nas pequenas criações que carregam significado. Em Timbó, o artesão Carlos Cezar Dias encontrou na madeira muito mais do que um material: descobriu um refúgio, um caminho de expressão e uma forma delicada de transformar desafios em beleza.
Casado há 38 anos com Tânia Regina Clerice Dias, Carlos construiu sua vida no trabalho metalúrgico, profissão da qual se aposentou em 2009. Até então, a madeira não fazia parte de sua rotina, tampouco de seus planos. Mas, como tantas viradas silenciosas da vida, foi no inesperado que tudo começou.
Em 2013, incentivado pelo irmão, surgiu a oportunidade de adquirir uma pequena marcenaria. A ideia inicial era simples: produzir peças utilitárias para o ramo agropecuário, como casinhas de pássaros, ninhos e tratadores. O que parecia apenas um passatempo logo se transformou em algo maior — uma conexão genuína com o fazer artesanal.
A criação que
nasce do olhar
Sem formação técnica, Carlos aprendeu com a prática, guiado por aquilo que ele mesmo define como um dom. Ao observar um pedaço de madeira — seja pinus, reaproveitado ou qualquer outro que tenha em mãos — ele enxerga possibilidades. Antes mesmo de iniciar o trabalho, a peça já começa a ganhar forma em sua imaginação.
“Eu olho para o material e começo a imaginar o que pode ser feito”, conta. E assim, sem pressa e sem metas, cada criação vai surgindo. O processo é livre, quase intuitivo: ele executa, observa, ajusta, incrementa — até alcançar aquilo que considera próximo da perfeição.
Hoje, suas obras se concentram principalmente em três linhas: casinhas de pássaros, pingômetros e expositores de vinho. Peças únicas, autênticas, feitas com cuidado e identidade própria — sem produção em série, sem repetição, sem pressão.
Entre tantas criações, duas ocupam um lugar especial em sua memória: as maquetes das casas onde viveu momentos marcantes da vida — a de sua infância e a de seu irmão. Trabalhos que carregam não apenas técnica, mas emoção.
A arte como
abrigo
Se a madeira trouxe expressão, a vida trouxe também desafios profundos. Em 2016, sua esposa foi diagnosticada com Alzheimer precoce, aos 48 anos. Desde então, Carlos assumiu um novo papel: o de cuidador. Um compromisso diário, feito de dedicação, paciência e amor.
“Ela é minha prioridade”, afirma. E é nesse cenário que o artesanato ganha um novo significado. Mais do que um hobby, ele se torna um espaço de respiro, uma forma de aliviar as tensões e encontrar equilíbrio em meio à rotina exigente.
Cada peça produzida carrega, de alguma forma, esse silêncio cheio de sentimentos. É o tempo desacelerado, a atenção aos detalhes, a construção paciente — quase como um diálogo entre o artesão e a própria vida.
Entre o talento e o reconhecimento
Carlos não vê o artesanato como fonte principal de renda, mas reconhece o valor do trabalho manual — muitas vezes não refletido no reconhecimento financeiro. Para ele, viver exclusivamente da arte ainda é um desafio, especialmente sem produção em larga escala.
Ainda assim, o desejo de compartilhar suas criações cresce. Aos poucos, ele se prepara para participar de eventos em Timbó e região, movido pelo prazer de mostrar aquilo que sabe fazer com tanto carinho. A experiência na Festa do Imigrante, no ano passado, deixou marcas positivas e reforçou esse caminho.
Sem projetos definidos, sem moldes fixos, Carlos segue criando a partir do que sente. Cada nova peça nasce do encontro entre o olhar e a madeira — e ganha vida como uma obra única, feita no tempo certo, com respeito ao processo.
No fim, sua história não fala apenas sobre artesanato. Fala sobre resiliência, cuidado e beleza nas pequenas coisas. Sobre transformar matéria em arte — e a vida, mesmo diante dos desafios, em algo digno de ser admirado.



