Antes que as cortinas se abram e os personagens ganhem vida diante do público, existe um universo de trabalho silencioso, criatividade e dedicação. É nesse cenário, onde tradição e arte caminham lado a lado, que nasceu “Kasperl e o pão que o diabo amassou”, novo espetáculo da Cia. Alma Livre, que atualmente percorre 12 cidades de Santa Catarina levando ao palco a magia do teatro de bonecos.
A montagem resgata uma das mais tradicionais expressões culturais de origem alemã: o Kasperltheater, linguagem trazida pelos imigrantes e preservada ao longo das gerações, especialmente em Santa Catarina. Mais do que um espetáculo, a produção revela uma história construída ao longo de anos, marcada por pesquisas, oficinas, adaptações e pelo desejo de manter viva uma importante herança cultural.
O ponto de partida dessa trajetória está na vida da atriz e bonequeira Mery Petty, coordenadora da Cia. Alma Livre, grupo sediado em Jaraguá do Sul. Desde a infância, ela foi encantada pelas apresentações da bonequeira Móin-Móin, nome artístico da imigrante alemã Margarethe Schlünzen, considerada uma das referências do teatro de bonecos em Santa Catarina. A lembrança dos personagens, da música e da atmosfera criada durante as apresentações ajudou a despertar uma paixão que atravessaria décadas.
Foi justamente dessa conexão com a tradição que nasceu a base da nova montagem. Inspirada por um livro alemão publicado em 1944 e dedicado ao universo do Kasperl, Mery iniciou um longo processo de criação que resultou na confecção artesanal de uma coleção de 17 bonecos em papel machê. Cada personagem recebeu características próprias, personalidade e identidade visual, elementos que contribuíram para dar vida ao espetáculo apresentado atualmente.
Na versão que chega aos palcos, cerca de dez personagens participam da narrativa, que ganhou novas leituras e diálogos com questões contemporâneas. Temas como fome, solidariedade e desigualdade social foram incorporados à história, ampliando sua conexão com o público atual. O personagem Kasperl assume um papel ainda mais relevante, tornando-se mediador dos conflitos e símbolo da busca por soluções coletivas.
Nos bastidores, a construção do espetáculo também é marcada pelo trabalho artesanal. Cenários, cortinas, estandartes, adereços e a tradicional empanada — estrutura que serve de palco para os bonecos — foram desenvolvidos cuidadosamente pela equipe. A trilha sonora segue a mesma proposta criativa, utilizando sons produzidos a partir de materiais reciclados e efeitos que dialogam diretamente com a narrativa.
Cada detalhe carrega a essência de uma arte construída com paciência e dedicação. O resultado é uma experiência que transporta crianças e adultos para um universo lúdico, onde imaginação, cultura e memória se encontram.
A realização da montagem só foi possível graças ao apoio do Programa de Incentivo à Cultura (PIC), do Governo de Santa Catarina, com aprovação da Fundação Catarinense de Cultura e incentivo das empresas Grupo Tigre, Urbano Alimentos e Grupo Kyly.
Com apresentações programadas até agosto, o espetáculo passará por cidades como Joinville, Pomerode, Jaraguá do Sul, Rio do Sul, Schroeder, Corupá, Chapecó e Lages, fortalecendo a circulação cultural e levando ao público uma das mais ricas tradições do teatro de formas animadas.
Uma companhia dedicada à arte de encantar
Com sede em Jaraguá do Sul, a Cia. Alma Livre construiu sua trajetória a partir da pesquisa e valorização do teatro de formas animadas. Liderado por Mery Petty e integrado pelos artistas Nicoli Pereira e Vinícius da Cunha, o grupo desenvolve espetáculos, ações de formação de público e projetos culturais que contribuem para a preservação e difusão do teatro em Santa Catarina. Ao longo dos anos, a companhia consolidou um repertório de sete espetáculos e inúmeras temporadas de circulação, aproximando a arte de diferentes comunidades catarinenses.
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