Há caminhos que se medem em quilômetros. Outros, em silêncio, fé e coragem. Para Vilmar Melere, de 62 anos, morador do bairro Vila Germer, em Timbó, a estrada até o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida não foi apenas uma travessia de quase 800 quilômetros — foi um mergulho profundo em si mesmo, na dor, na esperança e, sobretudo, na fé que sustenta cada passo.
O que começou como um desafio pessoal para marcar o aniversário ganhou outro significado ao longo do percurso. O que era celebração tornou-se promessa. O que era meta virou missão. Sozinho, sem carro de apoio, sem estrutura definida, Melere saiu de Timbó levando o essencial — e voltou trazendo histórias que não cabem em palavras. “Eu saí para fazer uma caminhada… e acabei vivendo uma caminhada de fé”, resume.


Durante a jornada, uma cruz simples carregada nas mãos se transformou em símbolo coletivo. Pessoas desconhecidas amarravam fitas, faziam pedidos, deixavam ali suas intenções. Sem perceber, Melere já não caminhava apenas por si. “Aquilo deixou de ser sobre mim. Era sobre a fé de cada pessoa que eu encontrava”, relembra.
Sozinho na estrada, sustentado pela fé e pelas pessoas
Diferente de experiências anteriores, quando contou com apoio, desta vez Melere seguiu completamente sozinho. Cada decisão era imediata: onde dormir, o que comer, até onde conseguir avançar. Houve dias de até 75 quilômetros percorridos, noites curtas de descanso e longos trechos sem alimentação adequada.
O corpo sentiu. Os pés feridos, o cansaço extremo e a solidão, por vezes, quase o fizeram desmoronar. “Teve momentos em que eu estava exausto, sem comer, sem apoio… parecia que eu ia cair”, conta.
Mas foi justamente nesses momentos que a jornada revelou sua maior força: as pessoas.
Ao longo do caminho, desconhecidos paravam para oferecer água, alimentos e palavras de incentivo. Caminhoneiros buzinavam em apoio. Mensagens chegavam pelas redes sociais, carregadas de pedidos de oração e demonstrações de carinho.
Um dos momentos mais marcantes aconteceu em um restaurante de estrada. Cansado, fragilizado e emocionalmente abalado, Melere foi surpreendido por um homem que o reconheceu e disse acompanhar sua caminhada. Conversaram, compartilharam histórias e, em um abraço silencioso, algo mudou. “Para ele pode não ter sido nada. Para mim, foi um anjo naquele momento”, relata.
Depois daquele encontro, a caminhada seguiu diferente. Mais leve. Mais firme.

Entre pausas, perdas e recomeços
No meio da jornada, um episódio inesperado interrompeu o percurso: a perda de sua cunhada. Melere precisou retornar, interrompendo a caminhada após já ter percorrido cerca de 340 quilômetros.
Foram horas difíceis. O luto, o cansaço e a distância percorrida colocaram à prova sua decisão. Mas, após um breve retorno para junto da família, ele fez algo que define sua trajetória: voltou exatamente ao ponto onde havia parado. “Se eu desistisse, teria que começar tudo de novo. E aquilo não fazia sentido”, afirma.
E seguiu.
Reorganizou o corpo, ajustou o ritmo e enfrentou novamente a estrada. Em dois dias, percorreu o que faria em um, compensando o tempo perdido. A caminhada, naquele momento, deixou de ser apenas física — tornou-se espiritual.
Cada passo era também um recomeço.
O destino emociona, mas é o caminho que transforma
Melere chegou ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida na Sexta-feira Santa. A chegada foi marcada por emoção, silêncio e gratidão. “A primeira coisa que vem é agradecer. Só agradecer”, diz.
Devoto de Nossa Senhora Aparecida, ele revela que fez apenas um pedido antes de iniciar a caminhada: força para chegar até o destino. E isso, segundo ele, foi concedido.
Mais do que cumprir um trajeto, Melere voltou com uma certeza renovada: a fé está nas pessoas. “Deus não está longe. Ele está em cada gesto, em cada ajuda, em cada palavra”, reflete.

Novos caminhos já estão no horizonte
Mesmo após uma jornada tão intensa, Melere não pensa em parar. Acostumado a desafios, ele já projeta novos caminhos movidos pela mesma fé que o levou até Aparecida.
Entre os próximos planos, está a caminhada até o Santuário de Santa Paulina, em Nova Trento — um trajeto de cerca de 85 quilômetros, que pretende realizar em um único dia. Também está nos planos percorrer o Caminho de Caravaggio, no Rio Grande do Sul, com aproximadamente 200 quilômetros.
Além disso, Melere já tem uma meta definida para este ano: refazer o Caminho da Fé, desta vez ao lado da esposa, em uma experiência mais compartilhada e contemplativa.
Há ainda um sonho guardado: o Caminho de Santiago de Compostela, na Europa. Embora ainda em fase de planejamento, a possibilidade já começa a ganhar forma. “A gente vai envelhecendo, mas enquanto o corpo permite, a gente precisa viver esses momentos”, afirma.
De volta à rotina em Timbó, Melere ainda processa tudo o que viveu. Os quilômetros ficaram para trás, mas a transformação permanece.
Porque algumas jornadas não terminam na chegada.
Elas continuam dentro de quem teve coragem de caminhar.



