Há sonhos que não têm pressa. Eles atravessam anos, amadurecem em silêncio e esperam, pacientemente, o momento certo para florescer. Em Timbó, um desses sonhos encontrou, enfim, sua realização — e encontrou na música o caminho mais sensível para se revelar.
No dia 29 de março, na Igreja da Ressurreição, a execução da Cantata BWV 56 — “Ich will den Kreuzstab gerne tragen”, de Johann Sebastian Bach — não foi apenas uma apresentação. Foi a materialização de um desejo cultivado por mais de duas décadas pelo pastor Hans Hermann Ziel, um homem que fez da arte e da música instrumentos de memória, fé e permanência.
A obra, concebida para ser apresentada no Domingo de Ramos, convida à reflexão sobre o sofrimento de Cristo, sobre as travessias da vida e sobre aquilo que todos, em algum momento, inevitavelmente enfrentam: a despedida.
Mas, naquela noite, a cantata foi além da partitura. Ela se transformou em experiência. Em emoção compartilhada. Em silêncio respeitoso que se instala quando a arte toca lugares profundos da alma.
Para a musicista e coordenadora da Divisão de Música da Fundação de Cultura e Turismo de Timbó, Meri Duwe, o momento foi memorável. Mais do que um concerto, tratou-se de um encontro raro entre história, sensibilidade e pertencimento — daqueles que permanecem na memória muito depois do último acorde.
Um sonho construído em muitas mãos
A realização do projeto reuniu músicos de diferentes cidades, além de amigos e familiares, todos movidos por algo maior do que o próprio espetáculo: o desejo de fazer acontecer.
Entre eles, o musicista timboense Marcos Klabunde, que desde a adolescência nutria admiração pelas cantatas de Bach. Ao longo dos anos, essa paixão encontrou eco no convívio com o pastor Ziel — e, agora, se concretiza em forma de som.
Para Klabunde, participar da execução da obra foi, ao mesmo tempo, um desafio e uma alegria profunda. Porque há momentos em que a música deixa de ser apenas técnica e se torna vivência. E este foi um deles.
Ao lado do oboísta Lúcio Gomes Portela, de Curitiba, e de um conjunto instrumental formado por músicos que se uniram voluntariamente, a cantata ganhou vida — sustentada não apenas pelo rigor artístico, mas pelo afeto de quem acreditou nesse sonho.
Quando a arte se transforma em legado
Composta em 1726, na cidade de Leipzig, a Cantata BWV 56 ocupa um lugar especial na obra de Bach. Escrita para voz solo, exige não apenas excelência técnica, mas uma entrega interpretativa capaz de traduzir sua profundidade espiritual.
E talvez seja justamente essa entrega que tenha tornado o momento tão singular.
Porque, naquela noite, não foi apenas Bach que ecoou pela igreja. Foi a história de um homem que dedicou sua vida à cultura. Foi a união de uma comunidade. Foi a prova de que sonhos, quando alimentados com fé e persistência, encontram seu caminho.
A apresentação, com entrada gratuita, abriu as portas não apenas para a música, mas para uma experiência que ultrapassa o tempo.
E, ao final, ficou a sensação de que algo maior havia acontecido ali. Algo que não se explica — mas que se sente. Algo que permanece. Como todo sonho que, enfim, encontra sua voz.
CRÉDITO DAS FOTOS/ @BRNPREILIPPER



